O Amigo das Ditaduras: Lula e o Abraço Que Isola o Brasil
O roteiro de Lula para a política externa tem um único ato: aproximar-se de regimes autoritários e chamar isso de "multilateralismo". Cuba, Nicarágua, Venezuela — todas ganham um assento cativo na mesa do Itamaraty. Em troca, o Brasil ganha o quê? Isolamento diplomático e um selo de "país alinhado a ditadores" que eleva sobrancelhas em Washington e Bruxelas.
A obsessão pela Venezuela, em particular, virou uma âncora de ferro no pescoço da política externa brasileira. "O Brasil apostou errado. Apostou numa Venezuela de Nicolás Maduro que não existe mais", avaliou o coordenador do DSI-USP Alberto Pfeifer, acrescentando que o país se isolou ao insistir em uma leitura ultrapassada do cenário político sul-americano.
Quando forças especiais dos EUA capturaram Maduro em janeiro de 2026, Lula teve a chance de recalcular a rota. Poderia condenar o regime que transformou a Venezuela em um buraco negro humanitário e reposicionar o Brasil como defensor da democracia regional. Em vez disso, emitiu uma declaração afirmando que a ação americana "cruzou uma linha inaceitável" e constituía "uma afronta muito séria à soberania da Venezuela". Não uma palavra de crítica a Maduro. Não uma palavra sobre os venezuelanos que fugiram em massa — 1,4 milhão deles apenas para o Brasil entre 2018 e a queda do regime.
A Chatham House soou o alarme: a recusa de Lula em condenar o regime venezuelano tornou-se um passivo eleitoral crescente. E mais: a maneira como Lula lida com a Venezuela agora funciona como um "medidor político" pelo qual eleitores e opositores avaliam seu compromisso com a democracia.
A resposta de Lula foi publicar um artigo no The New York Times clamando por diálogo. E só. Como sempre.
Ucrânia: O Silêncio que Fala Mais Alto
Se na Venezuela o problema é o excesso de bajulação, na Ucrânia o problema é a covardia moral travestida de "neutralidade". O discurso de Lula é invariável: condena a invasão russa "em tese", distribui culpas entre todos os lados — Zelensky, Biden, a Otan, o ocidente inteiro — e recusa-se a apoiar qualquer resolução que vá além de um vago "pelo fim da guerra".
Você quer o momento exato em que a política externa brasileira perdeu qualquer pretensão de protagonismo? Foi quando o governo brasileiro se absteve na votação de uma resolução da ONU apresentada pela Ucrânia condenando a invasão russa que completava três anos. A decisão, avaliou a imprensa, foi a "pá de cal nas pretensões de Lula de ser reconhecido como líder político global". Espantoso: o país que quer um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU não consegue nem dizer "não" a uma invasão declarada.
O episódio mais grotesco veio em julho de 2025. Uma publicação compartilhada pelo governo Lula no Instagram — no perfil oficial do Planalto — mostrou um mapa em que as regiões ucranianas de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhzhia, ocupadas pela Rússia, apareciam como território russo. O Itamaraty? Silêncio. Enquanto isso, Lula continuava a falar em "mediação". O mapa dizia o óbvio: não há mediação quando você já escolheu o lado.
O editorial do Estadão definiu com precisão cirúrgica o significado da visita de Lula à Praça Vermelha para as comemorações do Dia da Vitória: "O dia da infâmia". Acompanhado de autocratas, Lula posou para fotos ao lado de mísseis que massacram inocentes na Ucrânia. O texto é implacável: "Lula conduz uma política externa pautada não por interesses de Estado, mas por taras ideológicas e por sua ambição de ser festejado como vedete terceiro-mundista".
A Fagulha no Oriente Médio: Entre Genocídio e Antissemitismo
A terceira perna do tripé do desastre diplomático se chama Israel. Aqui, Lula abandonou qualquer resquício de moderação e partiu para o confronto direto — com as palavras mais inflamadas possíveis.
Em agosto de 2025, durante uma reunião ministerial, Lula acusou Israel de "assassinato" de crianças palestinas e voltou a classificar a ofensiva em Gaza como "genocídio": "Todo dia crianças que estão com fome aparecem na mídia, esqueléticas, e são assassinadas como se estivessem em guerra. Como se fossem do Hamas".
A reação israelense foi imediata. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, definiu Lula como "antissemita declarado e apoiador do Hamas" e afirmou que "vergonha para o maravilhoso povo brasileiro". Naquele momento, Brasil e Israel já não tinham embaixadores servindo nos respectivos postos — e o governo brasileiro havia retirado o país da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto.
Em setembro, Lula intensificou o tom. Na tribuna da ONU, declarou que não se trata apenas de "extermínio do povo palestino", mas de uma "tentativa de aniquilamento de seu sonho de nação". A Federação Israelita do Brasil classificou o discurso como uma repetição de "acusações mentirosas", lembrando que "acusar judeus de matar mulheres e crianças deliberadamente é uma das mais antigas acusações antissemitas da história".
O que Lula ganhou com essa escalada retórica? Nada. Israel não recuou um centímetro em Gaza. O Brasil não se tornou mediador de nada. A única coisa que aumentou foi o isolamento diplomático e a irritação de aliados ocidentais.
O Desastre com os EUA: Quando o Discurso Vira Fogo Amigo
Se Lula quer saber por que sua política externa não rende frutos, que olhe para o relacionamento com os Estados Unidos. O presidente tratou de incendiar a relação com Trump antes mesmo de ele pisar na Casa Branca, chamando-o de "imperador", ridicularizando sua atuação internacional e antagonizando-o como uma ameaça à democracia. O resultado? Em julho de 2025, Trump impôs uma tarifa de 50% a produtos brasileiros.
A reação de Lula foi proporcional? Não. Foi espalhafatosa: "Ao Brasil se le respeta" — e anunciou tarifas recíprocas de 50%. A consequência prática foi quase nula. A consequência simbólica foi gravíssima: o Brasil se colocou em rota de colisão com seu segundo maior parceiro comercial em ano eleitoral.
Lula elevou reiteradamente o tom contra Trump — disse que ele não é "imperador do mundo" e antagonizou-o. O efeito foi o oposto do desejado. Trump endureceu sanções contra ministros do STF, elevou tarifas e ameaçou embargos setoriais". E pior: segundo analistas, Trump não reconhecerá uma eventual vitória de Lula em 2026. A diplomacia virou vaidade pessoal — em vez de resguardar o Brasil, Lula temperou as crises como combustível eleitoral.
A conclusão é inevitável: o Brasil, sob Lula, administra a relação com os EUA como quem joga bingo — na base do improviso e do discurso inflamado.
Entre China e EUA: o Equilíbrio Impossível de Lula
Sem uma política externa estratégica, Lula se tornou um equilibrista sem rede sobre o abismo entre as duas maiores potências do mundo. De um lado, a China, que já absorve cerca de 30% das exportações brasileiras — comércio que atingiu US100bilho~esem2025—enquantoosEUAficamcomapenas10100bilho~esem2025—enquantoosEUAficamcomapenas10 244,7 bilhões em 2025).
O governo brasileiro tenta se posicionar como líder do Sul Global dentro do Brics, bloco que representa 40% do PIB mundial, mas enfrenta um problema de incoerência crônica. O resultado dessa dança diplomática? Tensões crescentes com Washington, dependência crescente de Pequim e zero ganho estratégico real. O Paraguai, ironicamente, hoje parece "mais expoente, mais presente na cena internacional que o próprio Brasil".
Até o acordo Mercosul-União Europeia, vendido como a grande vitrine da política externa de Lula, é frágil: "tardio, superficial, lento na sua plenitude, não dá conta das necessidades contemporâneas" — e ainda enfrenta um longo processo de ratificação.
Conclusão: A Grande Incoerência
Quando The Economist classificou a política externa de Lula como "cada vez mais incoerente", a frase poderia soar como provocação. Hoje soa como constatação subestimada. A coluna do Nexo foi ainda mais precisa: "Ao buscar alternativas à Europa e aos EUA, o presidente e seu assessor para política externa se aproximam de ditaduras e relativizam os valores da democracia e do direito internacional".
A política externa de Lula não é apenas ineficaz. É contraditória. Cospe em quem discorda sobre Israel e a Ucrânia, mas lambe as botas de regimes que fazem o mesmo. Quer liderar o Ocidente, mas não consegue dialogar com Washington ou Bruxelas sem ofender. Diz pregar o multilateralismo, mas aplica a versão seletiva — aquela em que o Brasil senta à mesa ao lado de ditadores e chama isso de "protagonismo".
O custo desse roteiro já começou a ser cobrado. A imagem do presidente foi corroída. As relações comerciais foram prejudicadas. O respeito internacional evaporou. E o Brasil, que poderia ser um contraponto ponderado entre potências rivais, agora é visto como um aliado inconveniente dos EUA e um fornecedor confiável demais da China.
A pergunta final, ecoando os artigos anteriores, é simples: para quem Lula está fazendo essa política externa? Para o Brasil, ou para suas próprias vaidades e rancores ideológicos?
O diplomata sem direção não serve ao país que lidera. Serve apenas a si mesmo — e ao rol de amigos autoritários que aplaudem do camarote.